Unidade em tempo integral atende cerca de 90 alunos Isú-Kariri e ajuda a fortalecer a cultura e a língua indígena no Cariri
A primeira escola indígena em tempo integral do Cariri foi oficialmente inaugurada em agosto, em Brejo Santo, no sul do Ceará. A unidade funciona na comunidade Baixio dos Bastos, no sítio Queimadas, e atende cerca de 90 estudantes do povo Isú-Kariri.
Atualmente, a comunidade fica a aproximadamente 20 quilômetros do centro de Brejo Santo. Além disso, cerca de 20 famílias Isú-Kariri vivem no local desde o início da década de 1990.
A escola começou a funcionar há dois anos. No entanto, a unidade recebeu a inauguração oficial somente neste mês de agosto.
A partir da criação da escola, os saberes tradicionais passaram a fazer parte da rotina dos estudantes. Além das disciplinas convencionais, os alunos participam de atividades relacionadas à cultura, ao artesanato, à preservação ambiental e à língua nativa.
Escola fortalece cultura indígena
A rotina da escola busca fortalecer a identidade do povo Isú-Kariri. Para isso, mestres da comunidade participam das atividades e compartilham conhecimentos com os alunos.
Semanalmente, os estudantes aprendem sobre plantas medicinais, ciências da natureza, artesanato e histórias ancestrais. Dessa forma, os conhecimentos transmitidos entre gerações também ganham espaço no ambiente escolar.
A diretora da escola, Cícera Pereira, conhecida como Simone, explica que a proposta vai além da sala de aula.
Segundo a diretora, o dia começa com cantos dos ancestrais. Além disso, os alunos aprendem a produzir peças tradicionais, como o cocar feito com palha de bananeira.
Nesse sentido, a escola também aproxima as famílias e os mestres da comunidade das atividades pedagógicas.
“A escola não se limita ao prédio físico: ela vai até o quintal dos pais, e os mestres vêm até nós”, explica Cícera.
Por sua vez, o secretário de Educação de Brejo Santo, David Júnior, destaca a importância da instituição para a comunidade.
De acordo com o secretário, a escola representa uma forma de valorização e reparação histórica do povo que vive no território.
Língua indígena volta às salas de aula
Entre os principais objetivos da escola, está o fortalecimento da língua Dzubukuá-kipeá, idioma tradicional do povo Isú-Kariri.
Para alcançar esse objetivo, Cícera Pereira também atua no ensino da língua. As atividades integram o vocabulário indígena ao português e levam o idioma para situações do cotidiano.
Além disso, a proposta recupera palavras que deixaram de ser utilizadas ao longo do tempo.
“Não é apenas aprender o vocabulário seco, mas passar uma vivência para que utilizem a língua no dia a dia”, afirma Cícera.
Segundo a diretora, o uso da língua nativa representa uma forma de fortalecer a identidade da comunidade.
Assim, a escola transforma o ensino do idioma em uma ferramenta de preservação cultural.
UFCA ajuda na estruturação da escola
Nesse contexto, a Universidade Federal do Cariri (UFCA) participou da estruturação física e pedagógica da escola.
Além disso, a universidade colaborou na elaboração do Projeto Político-Pedagógico (PPP), na produção de material didático específico e na formação continuada dos professores.
O professor Wiu Kurryra, especialista em Educação para as Relações Étnico-raciais e integrante do povo Xukuru de Ororubá, em Pernambuco, acompanhou o desenvolvimento do projeto.
Segundo ele, a Educação Escolar Indígena é um direito garantido pela Constituição Federal de 1988 e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).
Nesse sentido, a modalidade possui características próprias e deve respeitar os conhecimentos, a cultura e a organização de cada comunidade.
Por isso, a universidade discutiu com os próprios Isú-Kariri quais conhecimentos deveriam fazer parte da escola e como esses conteúdos seriam trabalhados.
Dessa maneira, a participação da comunidade ajudou a definir uma proposta pedagógica alinhada à realidade do povo indígena.
Escola aproxima universidade e comunidade
Além da estruturação da escola, a parceria também cria uma troca de conhecimentos entre os estudantes indígenas e a universidade.
Um exemplo disso é Júlia Serafim dos Santos, integrante do povo Isú-Kariri e estudante do curso de Licenciatura Interdisciplinar em Ciências Naturais da UFCA.
Para ela, a experiência permite compartilhar a língua e a cultura indígena no ambiente acadêmico.
Ao mesmo tempo, Júlia busca ampliar sua formação para levar novos conhecimentos de volta à comunidade.
Entre os alunos mais jovens, a escola também fortalece o sentimento de pertencimento.
Nesse contexto, Antônio Avelino, de 13 anos, afirma que as atividades ajudam os estudantes a conhecer e preservar a própria cultura.
Ceará tem 44 escolas indígenas
No Ceará, a implantação de escolas indígenas começou no final da década de 1990. Desde então, a rede de educação indígena ampliou o atendimento aos povos originários.
Atualmente, o estado possui 44 escolas indígenas distribuídas em 16 municípios e atende aproximadamente 8,7 mil estudantes.
Entre os povos atendidos estão:
- Anacé;
- Gavião;
- Kanindé;
- Kariri;
- Karão-Jaguaribaras;
- Tremembé;
- Tapeba;
- Jenipapo-Kanindé;
- Pitaguary;
- Kalabaça;
- Tapuia-Kariri;
- Tubiba-Tapuia;
- Potyguara;
- Tabajara;
- Tupinambá;
- Isú-Kariri.
Com isso, a nova escola de Brejo Santo amplia a rede de educação indígena e reforça a preservação da cultura dos povos originários do Ceará.
Herança Nativa valoriza cultura Isú-Kariri
Além da escola, a comunidade Isú-Kariri também participa do projeto Herança Nativa, realizado pelo Sesc Ceará.
Nesse contexto, a iniciativa promove encontros entre povos indígenas, comunidades quilombolas, ciganos e outros grupos tradicionais.
Durante as atividades, os Isú-Kariri apresentam aspectos de sua cultura, como alimentação, história, grafismo e artesanato.
O diretor regional do Sesc Ceará, Henrique Javi, afirma que o projeto contribui para a autoafirmação da comunidade.
Segundo ele, a iniciativa ajuda a criar mecanismos de reconhecimento sem afastar as tradições das transformações da sociedade.
Por sua vez, o consultor de programação social do Sesc Ceará, Paulo Leitão, destaca a importância do intercâmbio cultural.
De acordo com ele, os encontros permitem que a comunidade apresente elementos da culinária tradicional, como o mungunzá salgado.
Além disso, os Isú-Kariri compartilham conhecimentos sobre sua história, seus costumes, o grafismo e o artesanato.
Memória preserva história do povo
Além das ações educacionais e culturais, a comunidade também preserva a memória de sua trajetória.
Na década de 1990, os Isú-Kariri enfrentaram um deslocamento forçado provocado pela construção de um açude.
Atualmente, o Memorial Isú-Kariri ajuda a preservar essa história. Por meio do espaço, a comunidade mantém fotografias, instrumentos e objetos sagrados que registram sua trajetória.
Dessa forma, a escola, o memorial e os projetos culturais atuam em conjunto para fortalecer a identidade Isú-Kariri.
Ao mesmo tempo, essas iniciativas ajudam a manter vivas as tradições do povo indígena no Cariri.
Por fim, a inauguração da escola representa mais um passo para ampliar a educação indígena e preservar a cultura, a língua e a memória dos povos originários do Ceará.
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